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lua cheia

17 maio

amores
 
a lua cresce de escorpião para sagitário
entre 8h10 e 14h24
e será cheia, sobre a lua de maiara

Anúncios da Roberta. Hum, publiquei este post no Corpo Estranho e depois notei que a costura do Aronofsky dava pano pra manga por aqui. Prévia para o encontro mais tarde, junto à filha do Oceano e Medeias multiplicadas.

black swan: #anúncios de ensaio. ou: brincando com as pecinhas dos jogos de puzzle. Ainda falaremos de suicídio y otras cositas más.

Sonhei com a parte do prólogo, quando acontece o feitiço

A aparência humana é só um lampejo. Já houve o encantamento. Ab initio, o espetáculo de Tchaikovsky se desdobra na história de outra donzela aspirante ao extraordinário. No jogo especular proposto por Aronofsky, a narrativa também é duplo, estrutura deformada de O Lago dos Cisnes.

Somos lançados dentro do processo alucinado de incorporação artística encenada por Nina e da imagem deformada no espelho: a protagonista não pretende se libertar da forma de cisne; ao contrário, entrega-se, cada vez mais fundo, ao sortilégio. Assumir a possessão (em outras palavras, ser possuidor da possessão) elimina a necessidade de um príncipe e seu amor exclusivo. Nina é a LEDA capaz de tomar pra si a o saber e a força daquele que a violenta – nesse caso, nenhum Zeus em metamorfose, mas o desejo de atingir excelência em sua arte. “Eu só quero ser perfeita” é o fio que nos puxa ao interior do labirinto.

E lá, na espiral de espelhos, o movimento do corpo, o ritmo da música, o branco e o preto alternados se misturam à aquisição de todas as nuanças possíveis da alteridade radical ansiada – e ansiada até rebentar todos os limites. Se Lily tem as asas negras tatuadas nas costas, se Beth vivenciou as faces obscuras do “gêmeo do mal”, Nina deixará a pele ser perfurada com a plumagem noturna e deixará as pernas se arquarem até perder a humanidade que as sustenta. Nina, Lily e Beth – três cifras de duas sílabas: o duplo que antecede a indistinção.

Não existe ninguém nessa história além de Nina. Seu corpo é o lugar de onde assistimos ao balé.

A faceta do cisne branco, identificada à mulher de 28 anos infantil, sob o domínio da ambiguíssima proteção materna, é tão teatral quanto será a do cisne negro. É a primeira máscara acoplada ao rosto, finamente transmutada em aderência. A tese de que o bem e a pureza são maquinais, controlados e desumanos, explicitamente trabalhada num filme como O Olho do Diabo, do Bergman, ressurge nas dobras de inúmeras falas do diretor e professor de dança. “Deixe-se levar”, ele repete.

Quando o artista se entrega à pura experiência de ser, acontece o inesperado, o imprevisto, onde, segundo Eurípedes, “um deus encontra passagem”.

A identificação do duplo monstruoso permite vislumbrar em que clima de alucinação e terror ocorre a experiência religiosa primordial. Quando a histeria violenta encontra-se no auge, o duplo monstruoso aparece em todos os lugares ao mesmo tempo. A violência decisiva vai se dar simultaneamente contra a aparição sumamente maléfica e sob sua égide. Uma calma profunda segue-se à violência furiosa; as alucinações dissipam-se, o repouso é imediato. Isto torna mais misteriosa ainda toda a experiência. Em um breve instante, todos os extremos se tocaram, todas as diferenças se fundiram. Uma violência e uma paz igualmente sobre-humanas pareceram coincidir. Continue lendo

de repente, no último verão

11 abr

sei de quem assiste ao canibalismo num prazer incontido, ou pura indiferença – o que vem a dar no mesmo, na maior parte dos casos. o animalesco são os outros, diria um sartre sem metafísica.

com o pano encharcado de sonífero, o poder se infiltra nos fatos, pisando macio. o metal cai como uma luva à técnica, e quem detém a narrativa e a lâmina recorta os fatos, numa tentativa de esconder a violência do voyeur. ou a perversão do suposto poeta, que usa as formas de uma mulher como escudo e isca.

nem a lobotomia retira do mundo esse retrato. seria inútil manter a testemunha no hospício. o poço da verdade é um vulcão ativo. cedo ou tarde, um espirro faz voar uma borboleta no oriente, e as placas tectônicas sentem cócegas.

é um filme ótimo, por muitos motivos.

nem te contei, mas também falamos ontem sobre ler de tudo e  ver tudo, com a voracidade de quem pretende atingir alguma coisa bem além do óbvio, do poncif abominado pelos artistas (falamos do poncif, depois grudo aqui). do suicídio de safo, por exemplo – a veracidade controversa do acontecimento, e apropriação estética desse tópico pelos modernos e moralistas de toda sorte.

a palavra é sim um artigo de luxo quando em certas mãos, e pode inventar notícias onde existe vácuo, e sufocar pontos essenciais, que mudariam tudo: a história legitima a violência, que está longe de ser a chacina ou o estupro – consequências visíveis e aterradoras da violação cotidiana, do canibalismo diário. é a lava a derramar-se.

preciso ver de novo a medeia do pasolini. nada adianta: a frase bagunça os papéis sobre a mesa. nada adianta – repete a protagonista do anticristo, do lars von trier, outra medeia.

nada é tão fácil quanto o que se afirma, com pontos finais pra encerrar o caso. a reflexão está sempre ao redor das linhas. em outro lugar. no mais inaudível dos diálogos. saber ouvir o silêncio e saber ouvir, querer ouvir, sem ficar estático, é toda a ética necessária.

seguimos. tragédias a reescrever. os dramas que reencenam mitos. etc. beijos. maiara.