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medeia, deméter e a cavalaria

21 jun

“Em plena época de fome preparou-me uma belíssima refeição e fez-ma comer, postada à minha frente, confirmou as minhas suspeitas, assistiu, impávida, ao meu esforço para não vomitar, e conseguiu depois, como, já não sei, que eu me apresentasse ao povo como um apreciador de carne de cavalo. O castigo dos deuses não se abateu sobre mim, o povo matou os cavalos, comeu, sobreviveu e nunca mais esqueceu o que Medeia fez. Desde essa altura ela é vista como uma mulher má, porque, como diz Acamante, as pessoas preferem achar que estão enfeitiçadas a confessar a si mesmas que comeram ervas e devoraram as entranhas e animais intocáveis, simplesmente porque tinham fome. Medeia diz que quem obriga as pessoas a tocar no que lhes é sagrado faz delas seus inimigos. É coisa que não suportam. Por isso é que me caluniam, diz. Mas celeiros novos, isso ainda não construíram.” Christa Wolf. Medeia – Vozes.

“Durante a busca desesperada por Perséfone, Deméter é perseguida por Posídon, transformado em cavalo, e é sob a forma desse animal que o deus se une a ela, transformada em jumenta. O fruto dessa união é uma deusa chamada tão somente de ‘Senhora’, pois não se pode pronunciar seu nome, e/ou, conforme outras versões, o cavalo Árion” Em: Deméter e os mitos eleusinos

“É preciso lembrar ainda que a Deméter de Filageia é representada com cabeça de cavalo e que a Erínia, que é bem a imagem de uma Deméter enlutada, disposta a se vingar de tudo e de todos, é mãe de cavalos famosos.” Em: Deméter e os mitos eleusinos

O feminino é o outro da violência

18 jun

Diana e suas ninfas surpreendidas pelos faunos – Peter Paul Rubens (1577-1640).

esboço para um ensaio ainda sem título

O mais difícil é enfrentar o caderno de anotações e trazer à tona a atadura de ruídos, uns sons despejados entre as tarefas do cotidiano, cuja imagem é a serpente. Sim, a serpente é justamente a música rastejante que chega até nós das regiões submersas. O barulho quase imperceptível se demora, e ela entorna a si mesma num desenho, um sinal gráfico. Assim revela a imersão do corpo sinuoso no inframundo, enquanto a cabeça, separada do resto, pontua o limite do movimento, interrompe a continuidade completa entre o animal ctônico e o incognoscível.

O resultado é este: 

O ponto de interrogação condensa o processo de metamorfose do signo informe em signo mítico e, por fim, em signo abstrato.

Acabo de reproduzir, abusando da arbitrariedade da linguagem, a situação em que um fato — [experiência de um corpo real] (caótico) — se torna mítico (organização metonímica-metafórica) e depois discurso oficial (cultura). O pré-texto não é um poema, mas sem dúvida é poesia. A partir daqui, escreveria um ensaio sobre o ofício do poeta e a importância desse ofício, mas pretendo falar sobre a construção do feminino e, mais adiante, responder à questão por que medeia?

Enquanto mulher pode ser, simultaneamente, ideia e corpo, o feminino é pura abstração. Só existe baseado no processo de metamorfose pelo qual um signo alcança seu caráter ideal, ou seja: torna-se integrante da textualidade das relações. De elemento mediado pelo mito passa a elemento mediador de crenças instituídas. Em outras palavras: o processo aludido supra é dissimulado pelo signo que o condensa – neste caso, o conceito feminino. Seja como for, a ideia sempre evoca tudo o que arrastou até virar espectro de si mesma.

Nesse caso, criar um painel de representações do feminino e refletir sobre essas representações é reatar a ausência perigosa (espectro equivalente ao conceito), às vértebras subterrâneas, seu sustentáculo, e, em última estância, à carnadura que o expõe como campo devastado por todo o tipo de violação.

O efeminado (mulher, homem ou texto) nasce atrelado à exclusão da vida política (sono, loucura, mutismo etc.); à possessão; à morte simbólica; à redução ao fetiche (ou pura coisa). Banimento e estupro, suicídio e canibalismo, rapto, prole monstruosa ou maternidade terrível: o feminino é o Outro da violência.

É fácil afirmar que o Outro é mais uma abstração. Não se apreende a alteridade. E porque a alteridade é inatingível nunca existirá fora das representações. É propriamente mítica. Poderíamos desviar o texto para a rota do anátema cristão ou para as trilhas originárias da xenofobia. Poderíamos ir a muitos lugares. Mas nos interessa, agora, o Outro da violência. O Outro do sagrado. O Outro da cultura. E esse Outro, metonímia-metáfora de tantos outros igualmente repudiados-adorados, é o feminino — capaz de ocupar o campo simbólico da morte, abstração ontológica.

Há, por exemplo, o registro pictórico de uma luta — primeiro na memória, em seguida no suporte disponível: pedra, paredes da caverna, pele de uma presa anterior etc. — registro mais tarde transformado em transmissão oral, em que o medo, os dramas do embate, as sensações diante do sangue etc. se misturam à narrativa e, mais do que isso, à própria forma do relato.

Antes da linguagem — [experiência de um corpo real] (caótico) — não há diferença nenhuma entre quem sacrifica e quem sofre o sacrifício; a vítima tem o aspecto sedutor projetado pelo desejo-volúpia do “caçador”, o qual pretende obtê-la e usufruir de sua existência convertida em objeto — usufruto e obtenção integrantes da comunicação alucinada que é, afinal, o mito.

Acidente ou caça, homicídio ou combate: o cadáver resultante será o salto à percepção da existência de uma alteridade radical. Do outro absoluto. Não o cadáver em si mesmo, porém o morto pela primeira vez representado, duplicado por algum tipo de consciência: lampejo entre a coisa e o símbolo.

O resto mortal, sem a mediação de uma teia simbólica refinada, é pura coisa. Se o fascínio interfere na relação desse objeto (o cadáver) com o seu observador (homicida ou testemunha da metamorfose/processo de conversão), falamos em fetiche. Na sequência, virá o medo de uma alteridade vingativa e até identificação, responsáveis pela série de cuidados rituais. Não é difícil deduzir que o nascimento da alteridade radical seja o nascimento do(s) deus(es). Mas assim já vamos longe e perdemos o fio da meada.

Importa notar que a ideia da morte resulta do processo abrangendo a violência fortuita ou intencionalmente disparada, a qual transforma corpo em objeto, incluindo todas as etapas da percepção-epifania *.

A noção de feminino, ouso dizer, nascerá de modulações dentro da noção de alteridade. Feminil é o corpo subjugado durante a cópula. Feminil é, portanto, o corpo que pode ser submetido. A criatura feminil, por sua vez, serve como corpo-recipiente e é capaz de se moldar ao crescimento de um ser oculto, escondido sob o ventre, que se expande e de repente se destaca: corpo-miniatura, magicamente se transformando até participar da estrutura social. Veja: há uma distinção entre feminino e fêmea — essa diferença é o rombo infinito a separar corporeidade e abstração.

O desconhecido à espreita detém o princípio das metamorfoses. Indiretamente, mantém a cultura e, se quiser, pode devastar essa conquista fragilíssima a nos separar da animalidade ancestral: a conquista da humanidade. Vincular esse desconhecido ao feminil é imediato (de acordo com o mecanismo de pensamento que relatamos). A associação à alteridade absoluta, por sua vez, é consequência da operação mítica de substituições.

* percepção da alteridade, então substituída pelo fascínio fetichista e finalmente inscrita, por meio de operações de troca simbólica, nos domínios do sagrado.

[continua]

duas senhas

14 jun

“Pois todos os relatos que chegam até mim e me informam vêm dos homens, convencidos da superioridade de seu sexo (…) Eles têm medo delas e, para se tranquilizarem, eles as desprezam.” Georges Duby, historiador francês, referindo-se ao  período medieval

“Parece que os touros de Creta eram selvagens, de uma espécie muito robusta e, antes de serem domesticados, eram evidentemente caçados. No simbolismo dos caçadores, é frequente um dualismo sexual, em que a caça, elemento a ser subjugado pelo caçador, tem conotação feminina, enquanto está sendo perseguida, manipulada e morta pelo homem. A contrapartida ritual é oferecida pela imagem da mulher possuída e às vezes dilacerada pelo animal.” Em: Deméter e os mitos eleusinos

Pinto para dar uma face ao medo, Paula Rego | Por Roberta Ferraz

1 jun

Paula Rego em seu ateliê: não temer bruxas e muito menos temer dar o próprio rosto para a evidência de haver bruxas.

      

Para Maiara Gouveia, Ana Rüsche e Lilian Jacoto

E à prima, Laura Magri

Esse é um relato muito pessoal, mas isso não é uma ressalva: apenas uma maneira de lançar o convite com mais convicção, com mais paixão, com a espera de maior efeito. Um chamado. Já de cara, frente a frente com seus quadros, o que é pinçado no espectador é uma resposta visceral, altamente instintiva. Você se sente remexida e devolve à sensação um olhar de estranhamento, quando não (o que acontece muitas vezes), de repulsa.

            Andando pela sala da Pinacoteca do Estado de SP, é comum escutar “isso é horrível”, “extremo mau gosto”, “muito bizarro”, “não dá pra entender isso”. Frases como essa: Olé, Paula! Um amigo dela disse de sua pintura: “pinta para dar uma face ao medo”. Mas se você deixa que o olhar se entregue à trajetória de sua pintura, só lhe restará, ao fim, perguntar: e qual face não é uma face do medo?

            Breve biografia: Paula nasceu em Lisboa, em 1935, aquariana. O catálogo da exposição diz que foi filha de pais da ‘alta burguesia’ e que, aos 16 anos, é enviada pelo pai para Inglaterra, após este concluir que “em vista da forte repressão contra mulheres em Portugal, sua filha viveria melhor em um país mais liberal”. É na Inglaterra que ela vai estudar e viver boa parte de sua vida. Mas, olhando para o conteúdo do trabalho de Paula, não dá para não notar que era de Portugal que ela falava, ou a partir de Portugal, de Portugal como uma matriz (a sua) de um contínuo e civilizacional machismo violador de todo e qualquer rosto, sobrando como face, o medo. Paula nasce quando morre Fernando Pessoa. E viu diante de si todo o desenrolar macabro das ‘historinhas’ da ditadura. E mostrou que o silêncio pregado na boca das mulheres, a partir de seu trabalho, este silêncio teria um grito, muito marcado e encardido, menos fantasmagórico como aquele poente de Münch. O grito seria o grito da casa, do cotidiano, dos abusos sexuais. O grito seria a outra face (a do medo) pendente em sangue dentro das felizes fábulas de ninar, contos de fadas que não só servem para que o terror seja suportado, mas também para mascará-lo. Continue lendo

scum manifesto

16 maio

“Viver nesta sociedade significa, se tiver sorte, morrer de tédio; nada diz respeito às mulheres; então, àquelas dotadas de uma mente cívica, de sentido de responsabilidade e de busca por emoções, só resta uma possibilidade: derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instaurar a automatização completa e destruir o sexo masculino”.

– parágrafos iniciais de “Scum Manifesto”, Valerie Solanas, traduzido por A. (juro que não sou eu!)

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Fui apresentada à Valerie Solanas por uma das pesquisadoras de um grupo de estudo de semiótica do Vicente, a Társila. A notícia boa é que, googleando agora, descobri que o estudo virou dissertação e está publicado on-line:

Título: Análise semiótica e tradução de SCUM manifesto de Valerie Solanas

Autora: BORGES, Társila Lemos (Catálogo USP)

Orientador: PIETROFORTE, Antonio Vicente Seraphim, Depto. Linguística, FFLCH-USP.

A defesa do mestrado foi feita em 2006, faz tempo, mas não cheguei a saber. Farei a leitura com calma das análises que constam na dissertação, mas de bate-pronto digo que a leitura do Scum Manifesto é imprescindível. O texto é o que a Társila chamará de ultrafeminista.

A Solanas é daquelas personagens tão furiosamente reais, históricas. Ao ponto de ter dado três tiros no Andy Warhol, um deles no peito. Juro. Às vezes fica difícil de distinguir o que é texto, o que é ato. De minha parte, penso que o humor negro, os xingamentos e a falta absoluta de medida são a melhor parte. A aniquilação total de todos os homens. Não sei como vc lê, mas eu própria leio pelas tangentes. O exagero é uma maneira de estruturar a forma da denúncia. Se levar ao pé da letra é perdeu playboy. E, ao mesmo tempo, se não ver a urgência da questão… É um texto fundamental, tanto de partida, quanto de chegada. Não ficará de fora na bibliografia.

O resto é lírica Quem tem os melhores dentes

13 maio

o tubo de imagem vomita mundo na sala. entorto os dentes do garfo. mordo o lábio. adianta? não colo na pauta o elogio-pleonasmo. penduro heiner müller — legenda arbitrária. MedeaMaterial. amém. (ou: me encharco de epifania. meios de fazer silêncio enquanto o corpo cai)

O feminismo não se faz apenas com mulheres

11 maio

[o título é um aforismo. tenho mais alguns na manga]

A tendência é me tornar repetitiva. Por conta do doutorado. Essa forma de produção do conhecimento: eleição de um objeto perigoso e dissecação deste viva até que vc o sinta morto e encadernado de forma segura. Embora no meu caso tenha muita afeição. E o objeto seja inincadernável. Acho. A cada dia me sinto mais maravilhada. O que, a depender do que vc tem a fazer, pode ser um problema.

Bem, folheando no papel de luz o livro da Andréa Saad Hossne, Bovarismo e romance: Madame Bovary e Lady Oracle (recomendo!), encontrei alguns trechos de entrevistas lindos da Margaret Atwood. Tudo bem que ela concedeu esta entrevista no mês que eu nasci (!), há uns 32 anos, mas me serve hoje, deixo pra vc..

Feminista é para mim um adjetivo que não comporta alguém. Não é suficiente dizer que alguém é meramente feminista. Algumas pessoas escolhem definir-se a si mesmas como escritoras feministas. Eu não negaria o adjetivo, mas não o considero inclusivo. Há muitos outros interesses meus que não eu não gostaria que o adjetivo excluísse. As pessoas que entendem o meu ponto de vista tendem a ser mulheres da Escócia ou negras dos Estados Unidos [a autora é canadense], que dizem: feministas, tal como é usado nos Estados Unidos, geralmente significa americanas brancas de classe média dizendo que elas todas são mulheres…

Alguém que compreenda minha posição advém de uma cultura periférica como a minha, alguém da Escócia ou do Caribe, ou uma feminista negra dos Estados Unidos…

O que o termo escritora feminista significa para certas feministas americanas, não pode significar o mesmo que para mim. Elas estão dentro, olhando umas para as outras, enquanto eu estou do lado de fora”.

Retirado de Bovarismo e romance: Madame Bovary e Lady Oracle de Andréa Saad Hossne, página 56. Entrevista concedida a Gregory Fitz Gerald e Kathryn Crabbe em setembro de 1979.