poema de al berto, em que eu li (submersa) medéia

2 jun

Quando te escavaram o ventre encontraram traços adormecidos doutros povos
enigmáticos colares, pérolas corroídas, aços imutáveis, escritas duma outra idade, vestígios de insones navegações

da terra sobe um murmúrio de húmido coração
os vermes vão tecendo a recordação dos mortos para que possamos sobreviver ao estrondo da pólvora e da dinamite
as máquinas quase destruíram as torres duma cidade imaginada, submersa, inacessível, que eu suspeito ter sido construída com vento-suão
mas, é o negro ouro que atravessa os teus metálicos intestinos
com ele vais refinando a morte das aves e esquecendo a vida dos peixes
digo, das águas enfurecidas irromperá o desastre

se por qualquer razão te esfaquearem de novo, nada mais encontrarão que pequeníssimos cadáveres de saudade
ouço o resfolegar de remotos náufragos… lembro-me das pedras mortas dos teus pulsos
o peito rasga-se-me, uma lata de óleo trabalha o sangue

no céu terei sempre um pedaço de lua de açúcar, e uma estrela para iluminar teu rosto de árabe antigo

Al Berto, de “Mar-de-Leva (sete textos dedicados à vila de Sines), 1976

Pinto para dar uma face ao medo, Paula Rego | Por Roberta Ferraz

1 jun

Paula Rego em seu ateliê: não temer bruxas e muito menos temer dar o próprio rosto para a evidência de haver bruxas.

      

Para Maiara Gouveia, Ana Rüsche e Lilian Jacoto

E à prima, Laura Magri

Esse é um relato muito pessoal, mas isso não é uma ressalva: apenas uma maneira de lançar o convite com mais convicção, com mais paixão, com a espera de maior efeito. Um chamado. Já de cara, frente a frente com seus quadros, o que é pinçado no espectador é uma resposta visceral, altamente instintiva. Você se sente remexida e devolve à sensação um olhar de estranhamento, quando não (o que acontece muitas vezes), de repulsa.

            Andando pela sala da Pinacoteca do Estado de SP, é comum escutar “isso é horrível”, “extremo mau gosto”, “muito bizarro”, “não dá pra entender isso”. Frases como essa: Olé, Paula! Um amigo dela disse de sua pintura: “pinta para dar uma face ao medo”. Mas se você deixa que o olhar se entregue à trajetória de sua pintura, só lhe restará, ao fim, perguntar: e qual face não é uma face do medo?

            Breve biografia: Paula nasceu em Lisboa, em 1935, aquariana. O catálogo da exposição diz que foi filha de pais da ‘alta burguesia’ e que, aos 16 anos, é enviada pelo pai para Inglaterra, após este concluir que “em vista da forte repressão contra mulheres em Portugal, sua filha viveria melhor em um país mais liberal”. É na Inglaterra que ela vai estudar e viver boa parte de sua vida. Mas, olhando para o conteúdo do trabalho de Paula, não dá para não notar que era de Portugal que ela falava, ou a partir de Portugal, de Portugal como uma matriz (a sua) de um contínuo e civilizacional machismo violador de todo e qualquer rosto, sobrando como face, o medo. Paula nasce quando morre Fernando Pessoa. E viu diante de si todo o desenrolar macabro das ‘historinhas’ da ditadura. E mostrou que o silêncio pregado na boca das mulheres, a partir de seu trabalho, este silêncio teria um grito, muito marcado e encardido, menos fantasmagórico como aquele poente de Münch. O grito seria o grito da casa, do cotidiano, dos abusos sexuais. O grito seria a outra face (a do medo) pendente em sangue dentro das felizes fábulas de ninar, contos de fadas que não só servem para que o terror seja suportado, mas também para mascará-lo. Continue lendo

ciclo de filmes: ‘gênero em movimento’

19 maio

Gosto imensamente de teatro. Embora esteja sumida. O que não significa, necessariamente dizer que estou desatenta. Nossa, preciso com urgência voltar a assitir peças! Foi muito bom ter passado na Roosevelt esses dias pra sentir essa urgência (escutar o Rodolfo dando uma entrevista, isso tudo).

A Kiwi Cia de Teatro, agora nos anos 2010 e 2011, trabalha o projeto Carne – Patriarcado e capitalismo. Até hoje me recordo com clareza de um fevereiro em 2008 quando vi uma cena estarrecedora no palco. Era exibido no telão um comercial a respeito de felicidade e casamento e algum produto doméstico bem conhecido (não me lembro qual era ou mesmo se não era de comer – veja que não me recordo tão bem assim). Quando o comercial acaba, vc se dá conta que quem estava no comercial é a atriz que está na tua frente agora, mais velha, bem dona de si e da própria história em que atua. Aí, finalmente, ela comenta o comercial. Incrível.

Bem, o que tenho hoje é um convite. Para o ciclo de filmes Gênero em Movimento, realizado pela Kiwi em parceria com Ação Educativa e Hip Hop Mulher, com apoio do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir (Paris).

Programação completa aqui

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ligações

18 maio

De tempos em tempos tentarei trazer alguns links para cá. A rede é profícua em assuntos interessantes. E, se você puxa um fio, vem tudo, vai vendo, vem:

lua cheia

17 maio

amores
 
a lua cresce de escorpião para sagitário
entre 8h10 e 14h24
e será cheia, sobre a lua de maiara

Anúncios da Roberta. Hum, publiquei este post no Corpo Estranho e depois notei que a costura do Aronofsky dava pano pra manga por aqui. Prévia para o encontro mais tarde, junto à filha do Oceano e Medeias multiplicadas.

black swan: #anúncios de ensaio. ou: brincando com as pecinhas dos jogos de puzzle. Ainda falaremos de suicídio y otras cositas más.

Sonhei com a parte do prólogo, quando acontece o feitiço

A aparência humana é só um lampejo. Já houve o encantamento. Ab initio, o espetáculo de Tchaikovsky se desdobra na história de outra donzela aspirante ao extraordinário. No jogo especular proposto por Aronofsky, a narrativa também é duplo, estrutura deformada de O Lago dos Cisnes.

Somos lançados dentro do processo alucinado de incorporação artística encenada por Nina e da imagem deformada no espelho: a protagonista não pretende se libertar da forma de cisne; ao contrário, entrega-se, cada vez mais fundo, ao sortilégio. Assumir a possessão (em outras palavras, ser possuidor da possessão) elimina a necessidade de um príncipe e seu amor exclusivo. Nina é a LEDA capaz de tomar pra si a o saber e a força daquele que a violenta – nesse caso, nenhum Zeus em metamorfose, mas o desejo de atingir excelência em sua arte. “Eu só quero ser perfeita” é o fio que nos puxa ao interior do labirinto.

E lá, na espiral de espelhos, o movimento do corpo, o ritmo da música, o branco e o preto alternados se misturam à aquisição de todas as nuanças possíveis da alteridade radical ansiada – e ansiada até rebentar todos os limites. Se Lily tem as asas negras tatuadas nas costas, se Beth vivenciou as faces obscuras do “gêmeo do mal”, Nina deixará a pele ser perfurada com a plumagem noturna e deixará as pernas se arquarem até perder a humanidade que as sustenta. Nina, Lily e Beth – três cifras de duas sílabas: o duplo que antecede a indistinção.

Não existe ninguém nessa história além de Nina. Seu corpo é o lugar de onde assistimos ao balé.

A faceta do cisne branco, identificada à mulher de 28 anos infantil, sob o domínio da ambiguíssima proteção materna, é tão teatral quanto será a do cisne negro. É a primeira máscara acoplada ao rosto, finamente transmutada em aderência. A tese de que o bem e a pureza são maquinais, controlados e desumanos, explicitamente trabalhada num filme como O Olho do Diabo, do Bergman, ressurge nas dobras de inúmeras falas do diretor e professor de dança. “Deixe-se levar”, ele repete.

Quando o artista se entrega à pura experiência de ser, acontece o inesperado, o imprevisto, onde, segundo Eurípedes, “um deus encontra passagem”.

A identificação do duplo monstruoso permite vislumbrar em que clima de alucinação e terror ocorre a experiência religiosa primordial. Quando a histeria violenta encontra-se no auge, o duplo monstruoso aparece em todos os lugares ao mesmo tempo. A violência decisiva vai se dar simultaneamente contra a aparição sumamente maléfica e sob sua égide. Uma calma profunda segue-se à violência furiosa; as alucinações dissipam-se, o repouso é imediato. Isto torna mais misteriosa ainda toda a experiência. Em um breve instante, todos os extremos se tocaram, todas as diferenças se fundiram. Uma violência e uma paz igualmente sobre-humanas pareceram coincidir. Continue lendo

scum manifesto

16 maio

“Viver nesta sociedade significa, se tiver sorte, morrer de tédio; nada diz respeito às mulheres; então, àquelas dotadas de uma mente cívica, de sentido de responsabilidade e de busca por emoções, só resta uma possibilidade: derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instaurar a automatização completa e destruir o sexo masculino”.

– parágrafos iniciais de “Scum Manifesto”, Valerie Solanas, traduzido por A. (juro que não sou eu!)

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Fui apresentada à Valerie Solanas por uma das pesquisadoras de um grupo de estudo de semiótica do Vicente, a Társila. A notícia boa é que, googleando agora, descobri que o estudo virou dissertação e está publicado on-line:

Título: Análise semiótica e tradução de SCUM manifesto de Valerie Solanas

Autora: BORGES, Társila Lemos (Catálogo USP)

Orientador: PIETROFORTE, Antonio Vicente Seraphim, Depto. Linguística, FFLCH-USP.

A defesa do mestrado foi feita em 2006, faz tempo, mas não cheguei a saber. Farei a leitura com calma das análises que constam na dissertação, mas de bate-pronto digo que a leitura do Scum Manifesto é imprescindível. O texto é o que a Társila chamará de ultrafeminista.

A Solanas é daquelas personagens tão furiosamente reais, históricas. Ao ponto de ter dado três tiros no Andy Warhol, um deles no peito. Juro. Às vezes fica difícil de distinguir o que é texto, o que é ato. De minha parte, penso que o humor negro, os xingamentos e a falta absoluta de medida são a melhor parte. A aniquilação total de todos os homens. Não sei como vc lê, mas eu própria leio pelas tangentes. O exagero é uma maneira de estruturar a forma da denúncia. Se levar ao pé da letra é perdeu playboy. E, ao mesmo tempo, se não ver a urgência da questão… É um texto fundamental, tanto de partida, quanto de chegada. Não ficará de fora na bibliografia.

O resto é lírica Quem tem os melhores dentes

13 maio

o tubo de imagem vomita mundo na sala. entorto os dentes do garfo. mordo o lábio. adianta? não colo na pauta o elogio-pleonasmo. penduro heiner müller — legenda arbitrária. MedeaMaterial. amém. (ou: me encharco de epifania. meios de fazer silêncio enquanto o corpo cai)