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poema de al berto, em que eu li (submersa) medéia

2 jun

Quando te escavaram o ventre encontraram traços adormecidos doutros povos
enigmáticos colares, pérolas corroídas, aços imutáveis, escritas duma outra idade, vestígios de insones navegações

da terra sobe um murmúrio de húmido coração
os vermes vão tecendo a recordação dos mortos para que possamos sobreviver ao estrondo da pólvora e da dinamite
as máquinas quase destruíram as torres duma cidade imaginada, submersa, inacessível, que eu suspeito ter sido construída com vento-suão
mas, é o negro ouro que atravessa os teus metálicos intestinos
com ele vais refinando a morte das aves e esquecendo a vida dos peixes
digo, das águas enfurecidas irromperá o desastre

se por qualquer razão te esfaquearem de novo, nada mais encontrarão que pequeníssimos cadáveres de saudade
ouço o resfolegar de remotos náufragos… lembro-me das pedras mortas dos teus pulsos
o peito rasga-se-me, uma lata de óleo trabalha o sangue

no céu terei sempre um pedaço de lua de açúcar, e uma estrela para iluminar teu rosto de árabe antigo

Al Berto, de “Mar-de-Leva (sete textos dedicados à vila de Sines), 1976

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henry miller, sexus, pequena nota após a entrevista à revista OUNÃO, ontem

12 maio

“O essencial, é tornarmo-nos perfeitamente inúteis, absorvermo-nos na corrente comum, voltar a ser peixe e não fazer de monstro; o único benefício, dizia a mim mesmo, que posso retirar do ato de escrever é ver desaparecer desse modo as vidraças que me separam do mundo”

(trecho de Sexus, de Henry Miller, citado por Deleuze e Claire Parnet, em Diálogos.)

nas tramas de uma medéia menstruada

6 maio

domingo e Paula Rego

inspirado em não minha filha, você não vai dançar

este pequeno ditado sobre a pia educativa exemplar da querida Paula Rego, deixado nas bordas de um caderno que deseja Medéias menstruadas.

é um calabouço?

é amor – é só o gênio do calabouço

do CALA A BOCA

uma dosesinha de nada.