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fiapos de luz.

14 jun

cá estamos, cãozinho, a pasta azul e eu, a preparmos rascunhos intermináveis. canek finge fazer perguntas e eu as interpreto como se fossem minhas próprias. a pasta azul dá ideias. e quando se abre é possível vislumbrar a vertigem do labirinto das mil outras perguntas.

vem vadiaaaar, vem vadiaaaar…

6 jun

(retirado do Contrabandistas de Peluche especialmente pra vc!)

Minha maior vingança é ter essa aparência completamente inofensiva. Isso parece fala de personagem, mas não é. Não pude estar na Marcha das Vadias e achei fofo que algumas pessoas ligaram da Paulista no “cadê você?”, na certeza absoluta que estaria por lá. Lendo os relatos (abaixo linko dois) e assistindo os vídeos, deu aquele siricutico de fazer um algo, sabe?

Bruna Provazi: Nem putas, nem santas: livres

Todas Nós: SlutWalk SP: um grito diversificado contra o machismo

É que li um e-mail da Srta. Bia, em que constava o “Vai vadiar, vai vadiar”, musiquinha que todo mundo conhece bem. Comecei a cantar e percebi com o costumeiro horror que a letra retratava algo a que estamos horrorosamente acostumados: um homem acusando a mulher de vadia, mais ou menos pq ela não queria um lar – mas você não se acostumou à vida de um lar – o que você quer é vadiar. Fiquei imaginando esse “lar”: o cara chegando do trabalho, exigindo o jantar, abrindo a cerveja e gritando pelo futebol, enfim, as cenas tétricas do cotidiano. Cito minha estrofe predileta:

Quem gosta da orgia

Da noite pro dia

Não pode mudar

Vive outra fantasia

Não vai se acostumar

Eu errei quando tentei

te dar um lar

Você gosta do sereno

E meu mundo é pequeno

Prá lhe segurar

Vai procurar alegria

Fazer moradia na luz do luar

Vai Vadiar!…

Importante perceber que a interpretação é complexa, pois a parte que todo mundo gosta de cantar é o vai-vadiar, o que faz com que o lamento desse eu-lírico não seja compartilhado por quem canta, certo? Não simplifiquemos. E a música acaba assim “vai procurar alegria/ fazer moradia na luz do luar/ vai vadiar!”, meio que num consolo com a situação.

Como muitas vezes sou nutrida pelo sereno e pelas risadas à luz da lua, obviamente alguns mundos são realmente pequenos para mim. Enfim, fiquei com vontade de reescrever a música, não consegui ainda tempo-cabeça (queria ajuda!), mas fiz o pedacinho do refrão (tava fácil, né?).

Uma nanomanifestação de pelúcia.

ciclo de filmes: ‘gênero em movimento’

19 maio

Gosto imensamente de teatro. Embora esteja sumida. O que não significa, necessariamente dizer que estou desatenta. Nossa, preciso com urgência voltar a assitir peças! Foi muito bom ter passado na Roosevelt esses dias pra sentir essa urgência (escutar o Rodolfo dando uma entrevista, isso tudo).

A Kiwi Cia de Teatro, agora nos anos 2010 e 2011, trabalha o projeto Carne – Patriarcado e capitalismo. Até hoje me recordo com clareza de um fevereiro em 2008 quando vi uma cena estarrecedora no palco. Era exibido no telão um comercial a respeito de felicidade e casamento e algum produto doméstico bem conhecido (não me lembro qual era ou mesmo se não era de comer – veja que não me recordo tão bem assim). Quando o comercial acaba, vc se dá conta que quem estava no comercial é a atriz que está na tua frente agora, mais velha, bem dona de si e da própria história em que atua. Aí, finalmente, ela comenta o comercial. Incrível.

Bem, o que tenho hoje é um convite. Para o ciclo de filmes Gênero em Movimento, realizado pela Kiwi em parceria com Ação Educativa e Hip Hop Mulher, com apoio do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir (Paris).

Programação completa aqui

[clique na imagem para aumentar]

ligações

18 maio

De tempos em tempos tentarei trazer alguns links para cá. A rede é profícua em assuntos interessantes. E, se você puxa um fio, vem tudo, vai vendo, vem:

scum manifesto

16 maio

“Viver nesta sociedade significa, se tiver sorte, morrer de tédio; nada diz respeito às mulheres; então, àquelas dotadas de uma mente cívica, de sentido de responsabilidade e de busca por emoções, só resta uma possibilidade: derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instaurar a automatização completa e destruir o sexo masculino”.

– parágrafos iniciais de “Scum Manifesto”, Valerie Solanas, traduzido por A. (juro que não sou eu!)

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Fui apresentada à Valerie Solanas por uma das pesquisadoras de um grupo de estudo de semiótica do Vicente, a Társila. A notícia boa é que, googleando agora, descobri que o estudo virou dissertação e está publicado on-line:

Título: Análise semiótica e tradução de SCUM manifesto de Valerie Solanas

Autora: BORGES, Társila Lemos (Catálogo USP)

Orientador: PIETROFORTE, Antonio Vicente Seraphim, Depto. Linguística, FFLCH-USP.

A defesa do mestrado foi feita em 2006, faz tempo, mas não cheguei a saber. Farei a leitura com calma das análises que constam na dissertação, mas de bate-pronto digo que a leitura do Scum Manifesto é imprescindível. O texto é o que a Társila chamará de ultrafeminista.

A Solanas é daquelas personagens tão furiosamente reais, históricas. Ao ponto de ter dado três tiros no Andy Warhol, um deles no peito. Juro. Às vezes fica difícil de distinguir o que é texto, o que é ato. De minha parte, penso que o humor negro, os xingamentos e a falta absoluta de medida são a melhor parte. A aniquilação total de todos os homens. Não sei como vc lê, mas eu própria leio pelas tangentes. O exagero é uma maneira de estruturar a forma da denúncia. Se levar ao pé da letra é perdeu playboy. E, ao mesmo tempo, se não ver a urgência da questão… É um texto fundamental, tanto de partida, quanto de chegada. Não ficará de fora na bibliografia.

O feminismo não se faz apenas com mulheres

11 maio

[o título é um aforismo. tenho mais alguns na manga]

A tendência é me tornar repetitiva. Por conta do doutorado. Essa forma de produção do conhecimento: eleição de um objeto perigoso e dissecação deste viva até que vc o sinta morto e encadernado de forma segura. Embora no meu caso tenha muita afeição. E o objeto seja inincadernável. Acho. A cada dia me sinto mais maravilhada. O que, a depender do que vc tem a fazer, pode ser um problema.

Bem, folheando no papel de luz o livro da Andréa Saad Hossne, Bovarismo e romance: Madame Bovary e Lady Oracle (recomendo!), encontrei alguns trechos de entrevistas lindos da Margaret Atwood. Tudo bem que ela concedeu esta entrevista no mês que eu nasci (!), há uns 32 anos, mas me serve hoje, deixo pra vc..

Feminista é para mim um adjetivo que não comporta alguém. Não é suficiente dizer que alguém é meramente feminista. Algumas pessoas escolhem definir-se a si mesmas como escritoras feministas. Eu não negaria o adjetivo, mas não o considero inclusivo. Há muitos outros interesses meus que não eu não gostaria que o adjetivo excluísse. As pessoas que entendem o meu ponto de vista tendem a ser mulheres da Escócia ou negras dos Estados Unidos [a autora é canadense], que dizem: feministas, tal como é usado nos Estados Unidos, geralmente significa americanas brancas de classe média dizendo que elas todas são mulheres…

Alguém que compreenda minha posição advém de uma cultura periférica como a minha, alguém da Escócia ou do Caribe, ou uma feminista negra dos Estados Unidos…

O que o termo escritora feminista significa para certas feministas americanas, não pode significar o mesmo que para mim. Elas estão dentro, olhando umas para as outras, enquanto eu estou do lado de fora”.

Retirado de Bovarismo e romance: Madame Bovary e Lady Oracle de Andréa Saad Hossne, página 56. Entrevista concedida a Gregory Fitz Gerald e Kathryn Crabbe em setembro de 1979.

o terror e os mesmos demônios

6 maio

Minha técnica para assistir filmes de terror é um vexame. Na realidade, nem filme de terror mesmo consigo assistir – qualquer filme que tenha algo um pouco mais pesado já me causa o desconforto quase instransponível. Desculpa, não assisti televisão quando era criança. Aí tenho dificuldade em seguir a filmografia proposta pela Mai & Rô: como são filmes que tratam da Questão, fico absolutamente aflita, um horror.

Espio um pouquinho ali, troco de canal, assisto a novela, volto, insisto, tomo outra taça de vinho, atiro a bolinha pro Canek brincar, insisto e assim vai. Todos os procedimentos para quebrar a ação suspensa. Como o resultado é o filme demorar um tempão, essa atividade se estende para outras noites. Um inferno. Mas caminho aos poucos. O Bebê de Rosemary já estará falando e andando quando eu acabar de ver…

Bem, tenho uma indicação de exposição e palestra:

Paula Rego e o teatro das imagens

Veronica Stigger aborda o caráter teatral das obras de Paula Rego

Sobre a mostra: “Exposição retrospectiva de Paula Rego (Portugal, Lisboa, 1935), uma das mais importantes artistas contemporâneas portuguesas. A mostra reúne cerca de 110 obras, entre pinturas, gravuras, desenhos e colagens, realizadas entre os anos 1953 e 2009”.

O evento faz parte do “Sempre às Quintas” na Pinacoteca do Estado, Auditório, às 19:30h, entrada franca. Detalhes em http://www.pinacoteca.org.br


Como atividade do grupo, fomos ver esta exposição no último domingo. Uma experiência profunda [leia aqui o relato da Maiara]. Pra não mencionar os atos falhos – eu chamando a pintora de “ana paula lins do rego”, a Rô lendo em meu caderno a anotação “um p. rego”, da Mai não lembro agora, ela é mais concentrada.

Adorei o senso de humor (negro) da artista, as representações do que é sempre representado tradicionalmente – ah, bailarinas, o tratamento do horror e da brutalidade. Frase de um transeunte pela mostra “que mulher doida!”. Acho que não há outro tipo de mulher, há, hã? Fiquei curiosíssima sobre o que a Veronica falará sobre o assunto, mas infelizmente tenho obrigações obrigatórias neste dia/hora. Compareça por mim, plis!


Gosto tanto desta foto da Rô [clique para ampliar] – tem escrito “e ria”, tem ela no fundo emoldurada em dourado, as torres da estação da Luz como igreja, a maçaneta, Mai e eu nas silhuetas, a barra da saia, a estátua escura do arqueiro, os prédios e a Roberta ali esquecida de tudo, procurando algo perdido-achado na bolsa….