O feminino é o outro da violência

18 jun

Diana e suas ninfas surpreendidas pelos faunos – Peter Paul Rubens (1577-1640).

esboço para um ensaio ainda sem título

O mais difícil é enfrentar o caderno de anotações e trazer à tona a atadura de ruídos, uns sons despejados entre as tarefas do cotidiano, cuja imagem é a serpente. Sim, a serpente é justamente a música rastejante que chega até nós das regiões submersas. O barulho quase imperceptível se demora, e ela entorna a si mesma num desenho, um sinal gráfico. Assim revela a imersão do corpo sinuoso no inframundo, enquanto a cabeça, separada do resto, pontua o limite do movimento, interrompe a continuidade completa entre o animal ctônico e o incognoscível.

O resultado é este: 

O ponto de interrogação condensa o processo de metamorfose do signo informe em signo mítico e, por fim, em signo abstrato.

Acabo de reproduzir, abusando da arbitrariedade da linguagem, a situação em que um fato — [experiência de um corpo real] (caótico) — se torna mítico (organização metonímica-metafórica) e depois discurso oficial (cultura). O pré-texto não é um poema, mas sem dúvida é poesia. A partir daqui, escreveria um ensaio sobre o ofício do poeta e a importância desse ofício, mas pretendo falar sobre a construção do feminino e, mais adiante, responder à questão por que medeia?

Enquanto mulher pode ser, simultaneamente, ideia e corpo, o feminino é pura abstração. Só existe baseado no processo de metamorfose pelo qual um signo alcança seu caráter ideal, ou seja: torna-se integrante da textualidade das relações. De elemento mediado pelo mito passa a elemento mediador de crenças instituídas. Em outras palavras: o processo aludido supra é dissimulado pelo signo que o condensa – neste caso, o conceito feminino. Seja como for, a ideia sempre evoca tudo o que arrastou até virar espectro de si mesma.

Nesse caso, criar um painel de representações do feminino e refletir sobre essas representações é reatar a ausência perigosa (espectro equivalente ao conceito), às vértebras subterrâneas, seu sustentáculo, e, em última estância, à carnadura que o expõe como campo devastado por todo o tipo de violação.

O efeminado (mulher, homem ou texto) nasce atrelado à exclusão da vida política (sono, loucura, mutismo etc.); à possessão; à morte simbólica; à redução ao fetiche (ou pura coisa). Banimento e estupro, suicídio e canibalismo, rapto, prole monstruosa ou maternidade terrível: o feminino é o Outro da violência.

É fácil afirmar que o Outro é mais uma abstração. Não se apreende a alteridade. E porque a alteridade é inatingível nunca existirá fora das representações. É propriamente mítica. Poderíamos desviar o texto para a rota do anátema cristão ou para as trilhas originárias da xenofobia. Poderíamos ir a muitos lugares. Mas nos interessa, agora, o Outro da violência. O Outro do sagrado. O Outro da cultura. E esse Outro, metonímia-metáfora de tantos outros igualmente repudiados-adorados, é o feminino — capaz de ocupar o campo simbólico da morte, abstração ontológica.

Há, por exemplo, o registro pictórico de uma luta — primeiro na memória, em seguida no suporte disponível: pedra, paredes da caverna, pele de uma presa anterior etc. — registro mais tarde transformado em transmissão oral, em que o medo, os dramas do embate, as sensações diante do sangue etc. se misturam à narrativa e, mais do que isso, à própria forma do relato.

Antes da linguagem — [experiência de um corpo real] (caótico) — não há diferença nenhuma entre quem sacrifica e quem sofre o sacrifício; a vítima tem o aspecto sedutor projetado pelo desejo-volúpia do “caçador”, o qual pretende obtê-la e usufruir de sua existência convertida em objeto — usufruto e obtenção integrantes da comunicação alucinada que é, afinal, o mito.

Acidente ou caça, homicídio ou combate: o cadáver resultante será o salto à percepção da existência de uma alteridade radical. Do outro absoluto. Não o cadáver em si mesmo, porém o morto pela primeira vez representado, duplicado por algum tipo de consciência: lampejo entre a coisa e o símbolo.

O resto mortal, sem a mediação de uma teia simbólica refinada, é pura coisa. Se o fascínio interfere na relação desse objeto (o cadáver) com o seu observador (homicida ou testemunha da metamorfose/processo de conversão), falamos em fetiche. Na sequência, virá o medo de uma alteridade vingativa e até identificação, responsáveis pela série de cuidados rituais. Não é difícil deduzir que o nascimento da alteridade radical seja o nascimento do(s) deus(es). Mas assim já vamos longe e perdemos o fio da meada.

Importa notar que a ideia da morte resulta do processo abrangendo a violência fortuita ou intencionalmente disparada, a qual transforma corpo em objeto, incluindo todas as etapas da percepção-epifania *.

A noção de feminino, ouso dizer, nascerá de modulações dentro da noção de alteridade. Feminil é o corpo subjugado durante a cópula. Feminil é, portanto, o corpo que pode ser submetido. A criatura feminil, por sua vez, serve como corpo-recipiente e é capaz de se moldar ao crescimento de um ser oculto, escondido sob o ventre, que se expande e de repente se destaca: corpo-miniatura, magicamente se transformando até participar da estrutura social. Veja: há uma distinção entre feminino e fêmea — essa diferença é o rombo infinito a separar corporeidade e abstração.

O desconhecido à espreita detém o princípio das metamorfoses. Indiretamente, mantém a cultura e, se quiser, pode devastar essa conquista fragilíssima a nos separar da animalidade ancestral: a conquista da humanidade. Vincular esse desconhecido ao feminil é imediato (de acordo com o mecanismo de pensamento que relatamos). A associação à alteridade absoluta, por sua vez, é consequência da operação mítica de substituições.

* percepção da alteridade, então substituída pelo fascínio fetichista e finalmente inscrita, por meio de operações de troca simbólica, nos domínios do sagrado.

[continua]

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