Pinto para dar uma face ao medo, Paula Rego | Por Roberta Ferraz

1 jun

Paula Rego em seu ateliê: não temer bruxas e muito menos temer dar o próprio rosto para a evidência de haver bruxas.

      

Para Maiara Gouveia, Ana Rüsche e Lilian Jacoto

E à prima, Laura Magri

Esse é um relato muito pessoal, mas isso não é uma ressalva: apenas uma maneira de lançar o convite com mais convicção, com mais paixão, com a espera de maior efeito. Um chamado. Já de cara, frente a frente com seus quadros, o que é pinçado no espectador é uma resposta visceral, altamente instintiva. Você se sente remexida e devolve à sensação um olhar de estranhamento, quando não (o que acontece muitas vezes), de repulsa.

            Andando pela sala da Pinacoteca do Estado de SP, é comum escutar “isso é horrível”, “extremo mau gosto”, “muito bizarro”, “não dá pra entender isso”. Frases como essa: Olé, Paula! Um amigo dela disse de sua pintura: “pinta para dar uma face ao medo”. Mas se você deixa que o olhar se entregue à trajetória de sua pintura, só lhe restará, ao fim, perguntar: e qual face não é uma face do medo?

            Breve biografia: Paula nasceu em Lisboa, em 1935, aquariana. O catálogo da exposição diz que foi filha de pais da ‘alta burguesia’ e que, aos 16 anos, é enviada pelo pai para Inglaterra, após este concluir que “em vista da forte repressão contra mulheres em Portugal, sua filha viveria melhor em um país mais liberal”. É na Inglaterra que ela vai estudar e viver boa parte de sua vida. Mas, olhando para o conteúdo do trabalho de Paula, não dá para não notar que era de Portugal que ela falava, ou a partir de Portugal, de Portugal como uma matriz (a sua) de um contínuo e civilizacional machismo violador de todo e qualquer rosto, sobrando como face, o medo. Paula nasce quando morre Fernando Pessoa. E viu diante de si todo o desenrolar macabro das ‘historinhas’ da ditadura. E mostrou que o silêncio pregado na boca das mulheres, a partir de seu trabalho, este silêncio teria um grito, muito marcado e encardido, menos fantasmagórico como aquele poente de Münch. O grito seria o grito da casa, do cotidiano, dos abusos sexuais. O grito seria a outra face (a do medo) pendente em sangue dentro das felizes fábulas de ninar, contos de fadas que não só servem para que o terror seja suportado, mas também para mascará-lo.

“Dog woman” (1994), a bestialidade escancarada da mulher obrigada a se metamorfosear em cadela, obediente cadelinha que é a gata borralheira.

O fabulário torna-se um bestiário. Aqueles animaizinhos que nos eram apresentados como alegorias de vícios & virtudes, vencendo sempre a força educadora da moral que reprime o reconhecimento do mal (e sua força) é destrinchado às tripas de sua pura e visível crueza. Não: o lobo mau não é apenas uma força hipotética que se vence com penitências e orações. O lobo mau, mostra a Paula, é aquele sujeito que se esgueira e abre a saia da criança, é aquele outro que com farda e espingarda ‘chama’ a moça distraída ao abuso, é ainda aquele ali, sentado na tua frente, lendo jornais. O traço de Paula, que ela diz ter herdado do surrealismo (quando a imaginação não tem limites e o real só se sabe inventado), vem também de uma longa pesquisa de desenho somada à pesquisa com ‘contos de fadas’ que ela realizou com auxílio da Fundação Gulbenkian nos anos 60. A situação não poderia ser melhor. Em Portugal, esses livros morais, fábulas e afins, faziam parte intrínseca da educação de qualquer bom português católico, colonialista, reacionário. As cartilhas de boa educação escamoteiam a realidade política e social, alienam os mais fracos, que continuariam sendo aquelas presas dos bichos-papões, continuariam sendo o ‘lado b’ das histórias infantis. Não aqui.

            Contar histórias, mostra Paula, pode ser ‘descontar nas histórias’ o que as histórias omitem. E é por isso que as pessoas ficam chocadas, como se o maravilhoso mundo da infância cor-de-rosa em perfeição fosse (e é) um dos grandes tabus de qualquer política misógina. No fundo da casa portuguesa (e na nossa, e de muitos outros) paira ainda o pai-patrão-coronel que legitima seus fracassos abusando da mulher-criança, dois estatutos que não têm dignidade civil ou mesmo humana. A caricatura dessa ‘educação sentimental’ , essa zoologia pictórica que Paula traz à cena, força o espectador a olhar para sua própria vergonha, sua própria violência maquiada em hipocrisia, seu próprio silêncio corroído em culpa e injustiça.

            Mas não creio que a denúncia simplesmente se atraque num domínio tenebroso, numa experiência de derrota. Acho a Paula Rego extremamente solar, pronta para a vida. Há uma seta, neste desfile do horror cotidiano, que aponta o desmanche dos nódulos, uma seta potente, zombeteira. Irônica, sarcástica. Isso porque Paula não se vitima e não indica a ninguém o caminho da vitimização. O melhor de escancarar a podridão de uma casa é fazê-lo com graça, como quem já pode ver o ridículo da barbárie, além de lamentá-la. E nisso Paula elabora um possível rito de passagem para aquelas infâncias dentro de nós que não o tiveram: ao elaborar e deglutir a ‘consciência do mal’, ao invés de escamoteá-lo com regras e preceitos externos (como obedecer, rezar, não questionar), Paula realiza um trabalho de ‘cura’ de nosso inconsciente, trazendo-o à consciência de maneira direta, sem firulas. É um trabalho de mulher.

            E o mais fundo mergulho, a mais funda denúncia: chamar atenção para a violência machista que entorna o ‘tabu’ do aborto. Uma das sequências mais imponentes da mostra debruça-se justamente sobre a situação precária da mulher que, não só deve servir o sexo em raptos e estupros, como depois é condenada a parir um filho-monstro, um filho fruto do ódio e da impunidade. O aborto é assunto capital, ou ainda se pensa que toda mulher é mulher enquanto possível mãe? Ou ainda se pensa que todo filho é inevitavelmente um elo de amor? ou ainda se pensa que quem manda no corpo da mulher é a sociedade ou o homem? Olhe atrás do espelho, investigue os ‘contos de fadas’ da sua família. É a isso que Paula convida. E é claro, é exatamente isso que muitos detestarão fazer.

“Snow White swallows the poisoned Apple” (1995), e a maçã envenenada se revela: ele era um moço tão bom, prometeu tantas coisas (Jasão), eu até me vesti de Branca de Neve, só para ele. Ele pegou na minha mão e começou a me fazer ajoelhar, eu sempre fui feita para ser a menina e moça, e ele era tão bom rapaz. Achei bonito ajoelhar mas até que brotou das calças uma arma e uma obrigação, e de repente a maçã tinha um gosto ácido, havia roxos espalhados nas coxas e o castigo a que me mandaram as pessoas da casa. Eu nunca tive corpo.

“A família” (1988), (este é um dos meus quadros prediletos, ele encharca de símbolos e alegorias, mete tudo no olhar sarcástico de quem vê), “é óbvio que o papai morreu, será a primeira vez que vamos vesti-lo a contento”, diz a mãe com o olhar mais doce do mundo. Mas a filha mordaz responde, “agora vou brincar um pouquinho, é minha vez, com esse corpo. Vamos ver até onde essas calças sobem, vamos ver”. No canto, a filha mais nova reza, aliviada.Angel (1998), para sobreviver, meu bem: bucha numa mão e muito esforço para apagar tanta sujeira; espada na outra, porque terás que ter força para sobreviver. E sobretudo um rosto calmo, suave, um rosto que não ofereça perigo. Mas um rosto que não ceda. O anjo, meu bem, é saberes fingir muito bem, é estares atenta. Com armadura e muitas camadas de saia.

Vá ver: PAULA REGO, na Pinacoteca do Estado de SP, até este domingo, 05/06. Mais informações, aqui: http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=533&mn=

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