Arquivo | maio, 2011

ciclo de filmes: ‘gênero em movimento’

19 maio

Gosto imensamente de teatro. Embora esteja sumida. O que não significa, necessariamente dizer que estou desatenta. Nossa, preciso com urgência voltar a assitir peças! Foi muito bom ter passado na Roosevelt esses dias pra sentir essa urgência (escutar o Rodolfo dando uma entrevista, isso tudo).

A Kiwi Cia de Teatro, agora nos anos 2010 e 2011, trabalha o projeto Carne – Patriarcado e capitalismo. Até hoje me recordo com clareza de um fevereiro em 2008 quando vi uma cena estarrecedora no palco. Era exibido no telão um comercial a respeito de felicidade e casamento e algum produto doméstico bem conhecido (não me lembro qual era ou mesmo se não era de comer – veja que não me recordo tão bem assim). Quando o comercial acaba, vc se dá conta que quem estava no comercial é a atriz que está na tua frente agora, mais velha, bem dona de si e da própria história em que atua. Aí, finalmente, ela comenta o comercial. Incrível.

Bem, o que tenho hoje é um convite. Para o ciclo de filmes Gênero em Movimento, realizado pela Kiwi em parceria com Ação Educativa e Hip Hop Mulher, com apoio do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir (Paris).

Programação completa aqui

[clique na imagem para aumentar]

ligações

18 maio

De tempos em tempos tentarei trazer alguns links para cá. A rede é profícua em assuntos interessantes. E, se você puxa um fio, vem tudo, vai vendo, vem:

lua cheia

17 maio

amores
 
a lua cresce de escorpião para sagitário
entre 8h10 e 14h24
e será cheia, sobre a lua de maiara

Anúncios da Roberta. Hum, publiquei este post no Corpo Estranho e depois notei que a costura do Aronofsky dava pano pra manga por aqui. Prévia para o encontro mais tarde, junto à filha do Oceano e Medeias multiplicadas.

black swan: #anúncios de ensaio. ou: brincando com as pecinhas dos jogos de puzzle. Ainda falaremos de suicídio y otras cositas más.

Sonhei com a parte do prólogo, quando acontece o feitiço

A aparência humana é só um lampejo. Já houve o encantamento. Ab initio, o espetáculo de Tchaikovsky se desdobra na história de outra donzela aspirante ao extraordinário. No jogo especular proposto por Aronofsky, a narrativa também é duplo, estrutura deformada de O Lago dos Cisnes.

Somos lançados dentro do processo alucinado de incorporação artística encenada por Nina e da imagem deformada no espelho: a protagonista não pretende se libertar da forma de cisne; ao contrário, entrega-se, cada vez mais fundo, ao sortilégio. Assumir a possessão (em outras palavras, ser possuidor da possessão) elimina a necessidade de um príncipe e seu amor exclusivo. Nina é a LEDA capaz de tomar pra si a o saber e a força daquele que a violenta – nesse caso, nenhum Zeus em metamorfose, mas o desejo de atingir excelência em sua arte. “Eu só quero ser perfeita” é o fio que nos puxa ao interior do labirinto.

E lá, na espiral de espelhos, o movimento do corpo, o ritmo da música, o branco e o preto alternados se misturam à aquisição de todas as nuanças possíveis da alteridade radical ansiada – e ansiada até rebentar todos os limites. Se Lily tem as asas negras tatuadas nas costas, se Beth vivenciou as faces obscuras do “gêmeo do mal”, Nina deixará a pele ser perfurada com a plumagem noturna e deixará as pernas se arquarem até perder a humanidade que as sustenta. Nina, Lily e Beth – três cifras de duas sílabas: o duplo que antecede a indistinção.

Não existe ninguém nessa história além de Nina. Seu corpo é o lugar de onde assistimos ao balé.

A faceta do cisne branco, identificada à mulher de 28 anos infantil, sob o domínio da ambiguíssima proteção materna, é tão teatral quanto será a do cisne negro. É a primeira máscara acoplada ao rosto, finamente transmutada em aderência. A tese de que o bem e a pureza são maquinais, controlados e desumanos, explicitamente trabalhada num filme como O Olho do Diabo, do Bergman, ressurge nas dobras de inúmeras falas do diretor e professor de dança. “Deixe-se levar”, ele repete.

Quando o artista se entrega à pura experiência de ser, acontece o inesperado, o imprevisto, onde, segundo Eurípedes, “um deus encontra passagem”.

A identificação do duplo monstruoso permite vislumbrar em que clima de alucinação e terror ocorre a experiência religiosa primordial. Quando a histeria violenta encontra-se no auge, o duplo monstruoso aparece em todos os lugares ao mesmo tempo. A violência decisiva vai se dar simultaneamente contra a aparição sumamente maléfica e sob sua égide. Uma calma profunda segue-se à violência furiosa; as alucinações dissipam-se, o repouso é imediato. Isto torna mais misteriosa ainda toda a experiência. Em um breve instante, todos os extremos se tocaram, todas as diferenças se fundiram. Uma violência e uma paz igualmente sobre-humanas pareceram coincidir. Continue lendo

scum manifesto

16 maio

“Viver nesta sociedade significa, se tiver sorte, morrer de tédio; nada diz respeito às mulheres; então, àquelas dotadas de uma mente cívica, de sentido de responsabilidade e de busca por emoções, só resta uma possibilidade: derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instaurar a automatização completa e destruir o sexo masculino”.

– parágrafos iniciais de “Scum Manifesto”, Valerie Solanas, traduzido por A. (juro que não sou eu!)

.

Fui apresentada à Valerie Solanas por uma das pesquisadoras de um grupo de estudo de semiótica do Vicente, a Társila. A notícia boa é que, googleando agora, descobri que o estudo virou dissertação e está publicado on-line:

Título: Análise semiótica e tradução de SCUM manifesto de Valerie Solanas

Autora: BORGES, Társila Lemos (Catálogo USP)

Orientador: PIETROFORTE, Antonio Vicente Seraphim, Depto. Linguística, FFLCH-USP.

A defesa do mestrado foi feita em 2006, faz tempo, mas não cheguei a saber. Farei a leitura com calma das análises que constam na dissertação, mas de bate-pronto digo que a leitura do Scum Manifesto é imprescindível. O texto é o que a Társila chamará de ultrafeminista.

A Solanas é daquelas personagens tão furiosamente reais, históricas. Ao ponto de ter dado três tiros no Andy Warhol, um deles no peito. Juro. Às vezes fica difícil de distinguir o que é texto, o que é ato. De minha parte, penso que o humor negro, os xingamentos e a falta absoluta de medida são a melhor parte. A aniquilação total de todos os homens. Não sei como vc lê, mas eu própria leio pelas tangentes. O exagero é uma maneira de estruturar a forma da denúncia. Se levar ao pé da letra é perdeu playboy. E, ao mesmo tempo, se não ver a urgência da questão… É um texto fundamental, tanto de partida, quanto de chegada. Não ficará de fora na bibliografia.

O resto é lírica Quem tem os melhores dentes

13 maio

o tubo de imagem vomita mundo na sala. entorto os dentes do garfo. mordo o lábio. adianta? não colo na pauta o elogio-pleonasmo. penduro heiner müller — legenda arbitrária. MedeaMaterial. amém. (ou: me encharco de epifania. meios de fazer silêncio enquanto o corpo cai)

henry miller, sexus, pequena nota após a entrevista à revista OUNÃO, ontem

12 maio

“O essencial, é tornarmo-nos perfeitamente inúteis, absorvermo-nos na corrente comum, voltar a ser peixe e não fazer de monstro; o único benefício, dizia a mim mesmo, que posso retirar do ato de escrever é ver desaparecer desse modo as vidraças que me separam do mundo”

(trecho de Sexus, de Henry Miller, citado por Deleuze e Claire Parnet, em Diálogos.)

Bastidores da entrevista

12 maio