de repente, no último verão

11 abr

sei de quem assiste ao canibalismo num prazer incontido, ou pura indiferença – o que vem a dar no mesmo, na maior parte dos casos. o animalesco são os outros, diria um sartre sem metafísica.

com o pano encharcado de sonífero, o poder se infiltra nos fatos, pisando macio. o metal cai como uma luva à técnica, e quem detém a narrativa e a lâmina recorta os fatos, numa tentativa de esconder a violência do voyeur. ou a perversão do suposto poeta, que usa as formas de uma mulher como escudo e isca.

nem a lobotomia retira do mundo esse retrato. seria inútil manter a testemunha no hospício. o poço da verdade é um vulcão ativo. cedo ou tarde, um espirro faz voar uma borboleta no oriente, e as placas tectônicas sentem cócegas.

é um filme ótimo, por muitos motivos.

nem te contei, mas também falamos ontem sobre ler de tudo e  ver tudo, com a voracidade de quem pretende atingir alguma coisa bem além do óbvio, do poncif abominado pelos artistas (falamos do poncif, depois grudo aqui). do suicídio de safo, por exemplo – a veracidade controversa do acontecimento, e apropriação estética desse tópico pelos modernos e moralistas de toda sorte.

a palavra é sim um artigo de luxo quando em certas mãos, e pode inventar notícias onde existe vácuo, e sufocar pontos essenciais, que mudariam tudo: a história legitima a violência, que está longe de ser a chacina ou o estupro – consequências visíveis e aterradoras da violação cotidiana, do canibalismo diário. é a lava a derramar-se.

preciso ver de novo a medeia do pasolini. nada adianta: a frase bagunça os papéis sobre a mesa. nada adianta – repete a protagonista do anticristo, do lars von trier, outra medeia.

nada é tão fácil quanto o que se afirma, com pontos finais pra encerrar o caso. a reflexão está sempre ao redor das linhas. em outro lugar. no mais inaudível dos diálogos. saber ouvir o silêncio e saber ouvir, querer ouvir, sem ficar estático, é toda a ética necessária.

seguimos. tragédias a reescrever. os dramas que reencenam mitos. etc. beijos. maiara.

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2 Respostas to “de repente, no último verão”

Trackbacks/Pingbacks

  1. de repente, no último verão « Corpo Estranho - abril 11, 2011

    […] nem a lobotomia retira do mundo esse retrato. LER TUDO […]

  2. de repente, no último verão « Corpo Estranho - abril 12, 2011

    […] nem te contei, mas também falamos ontem sobre ler de tudo e  ver tudo, com a voracidade de quem pretende atingir alguma coisa bem além do óbvio, do poncif abominado pelos artistas LER TUDO […]

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