Archive | abril, 2011

a “mulher” é uma imagem

29 abr

sharon stone revive ophélia p/ o fotógrafo de moda tony duran

: a imagem de uma mulher morta. a frase é da márcia tiburi,  amada, NESTE ARTIGO.

ana, roberta e yo iremos à pinacoteca assistir à exposição da paula rego

lembrei agora de uma das epígrafes do livrinho inédito da rô, saturações de saturno:

podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada – gonçalo m. tavares

curiosidade. sonhei com a lilian aquino: usava na cabeça um navio-dobradura.  o lugar da pintura onírica: sala de aula abarrotada de gente. e abigail na fila do meio.

entre as presenças, o deputado francisco everardo de oliveira silva (tiririca), encostado na parede – fileira bem longe da porta. ao fundo, na turma da bagunça, um político sem nome. a professora pergunta: quem é a favor da legalização do aborto? alvoroço. disse que disse. lilian vai falar. acordo. mais um daqueles sonhos de regresso à superfície.

deixo a márcia ecoar:

Nos últimos 200 anos, a representação de Ofélia parece seguir certa unanimidade, ou bem Ofélia é representada louca ou morta. (…) A morte como forma central do imaginário dos homens sobre mulheres é a questão central deste trabalho interessado em compreender os fundamentos da necrofilia cultural, desse “padrão cultural de se matarem mulheres” que aparece na pesquisa sociológica de Eva Blay e é tão bem exposto na história da arte nessa espécie de culto da mulher cadáver.

Que a imaginação seja “mulher” impõe uma correspondência fantasmática e nociva para as mulheres: a imagem é metonímia para a mulher. A mulher é vista como imagem, eis também um modo de matar outra coisa que ela possa ser, Continue lendo

bracelete de ouroboros

21 abr

cia. nova de teatro apresenta heiner muller

Heiner Müller em Repertório: compilação de Medeamaterial, Hamletmaschine e Descrição de Imagem. Isso foi em 2009, experiência estonteante. De madrugada, lendo e folheando artigos pra acrescentar às nossas referências bibliográficas, lembrei de um em especial, de pessoa queridíssima. Adianto que é um estudo precioso a partir da construção de Ofelia. Sim, sim, a Ofelia. E deixo o resto em suspenso, pra aguçar tua curiosidade e te trazer de volta. A epígrafe era justamente um trechinho do Hamletmaschine. Ah, o bracelete de Ouroboros. Quando voltar, te conto. Beijíssimos, Mai.

medeias?

19 abr

É possível que a espacialidade seja a projeção da extensão do aparelho psíquico. A psique é a extensão, nada sabe acerca disso. Anotação de FREUD, poucos dias antes de morrer. Em: NASIO, J.D. Meu corpo e suas imagens. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2009.

Nem sei por que escolhi essa epígrafe. Talvez descubra mais tarde. Voltei pra contar dos planos neste mar de tribulações que não está pra peixe.

Articular as datas de três mulheres cheias de compromisso não é das tarefas fáceis. Sugiro edições extras em dupla, documentadas para a terceira ponta – de modo que assim não esfriamos os motores. E depois, no finalzinho do mês, o encontro da tríade. Ou no dia 1º de maio? A saber.

Medeias?

Rô também cogita a Medeia.

Preciso confessar. | Ontem de manhã, O Exorcista caiu sozinho da estante. Tenho medo desses sinais. Apesar de tudo, não descarto a hipótese. Mesmo com a Sra. Vogler em mente. Aquela que resolveu emudecer interpretando Electra.

memórias e decisões

13 abr

3 nornas

Coisa passada: Ciclo de Palestras Cinema e Feminino – organização e curadoria de Roberta Ferraz. Entre os palestrantes, Ana Rüsche falaria sobre A Caixa de Pandora, e Maiara Gouveia, em parceria com a anfitriã, do Anticristo. Foi exatamente nesse dia que eu conheci a Renata Huber, ponta solta deste quadrado fictício.

Antes, bem antes, quase publiquei um livrinho de ensaios, passeio literário no cinema de Lars Von Trier. Durante os 7 anos que me trazem até aqui, a intimidade com o cineasta aumentou tanto quanto a vontade de escrevê-la. Experiências muito pessoais, dentro e fora do domínio estético, e a beberagem das influências do artista na própria fonte – por exemplo, Nietszche, Carl Dreyer, Bergman, Tarkovsky – salpicam no encontro quase quádruplo a claridade do anúncio.

(…)

Ana Rüsche propõe a reescrita individual de uma tragédia. Roberta Ferraz sugere outra, criada pelas três, em 30 dedos. Maiara, ensaísta de braços abertos e mãos vazias, aceita as duas propostas e anuncia texto e aula para cada um dos filmes do Lars Von Trier, todos sob a chave violência e representações do feminino, o que , aliás – desconfia – é o melhor ângulo pra filmar a experiência trágica do artista querido.

Quatro tragédias futuras. Novo ciclo de palestras. E o resto é vertigem.

de repente, no último verão

11 abr

sei de quem assiste ao canibalismo num prazer incontido, ou pura indiferença – o que vem a dar no mesmo, na maior parte dos casos. o animalesco são os outros, diria um sartre sem metafísica.

com o pano encharcado de sonífero, o poder se infiltra nos fatos, pisando macio. o metal cai como uma luva à técnica, e quem detém a narrativa e a lâmina recorta os fatos, numa tentativa de esconder a violência do voyeur. ou a perversão do suposto poeta, que usa as formas de uma mulher como escudo e isca.

nem a lobotomia retira do mundo esse retrato. seria inútil manter a testemunha no hospício. o poço da verdade é um vulcão ativo. cedo ou tarde, um espirro faz voar uma borboleta no oriente, e as placas tectônicas sentem cócegas.

é um filme ótimo, por muitos motivos.

nem te contei, mas também falamos ontem sobre ler de tudo e  ver tudo, com a voracidade de quem pretende atingir alguma coisa bem além do óbvio, do poncif abominado pelos artistas (falamos do poncif, depois grudo aqui). do suicídio de safo, por exemplo – a veracidade controversa do acontecimento, e apropriação estética desse tópico pelos modernos e moralistas de toda sorte.

a palavra é sim um artigo de luxo quando em certas mãos, e pode inventar notícias onde existe vácuo, e sufocar pontos essenciais, que mudariam tudo: a história legitima a violência, que está longe de ser a chacina ou o estupro – consequências visíveis e aterradoras da violação cotidiana, do canibalismo diário. é a lava a derramar-se.

preciso ver de novo a medeia do pasolini. nada adianta: a frase bagunça os papéis sobre a mesa. nada adianta – repete a protagonista do anticristo, do lars von trier, outra medeia.

nada é tão fácil quanto o que se afirma, com pontos finais pra encerrar o caso. a reflexão está sempre ao redor das linhas. em outro lugar. no mais inaudível dos diálogos. saber ouvir o silêncio e saber ouvir, querer ouvir, sem ficar estático, é toda a ética necessária.

seguimos. tragédias a reescrever. os dramas que reencenam mitos. etc. beijos. maiara.

atividades do dia 10 de abril

11 abr

(adoro o tom bem sério do título pro post)

Oi, Rô, nossa querida,

Fez falta no domingo. Ah, a gripe e a indisposição… de uma maneira não imagino nada mais paulistano – melhoras, viu?! Decidimos manter o encontro, até pq a Maiara não sabia que vc não viria – um acaso útil.

Feita a tarefa de casa cinematográfica, trocamos os filmes já assistidos entre nós: entreguei a Medeia do Pasolini e o Minha Noite Com Ela do Rohmer. A Mai me entregou o As Mulheres de Tróia do Mihalis Kakogiannis e o De Repente, no Último Verão do Mankiewicz. Seguiram-se elogios impressionados e comentários.

Sobre os livros, foram vários. Estavam comigo o Medea – Stimmen e o Cassandra da Christa Wolf, na tradução de Marijane Vieira Lisboa. O primeiro não li, ainda o farei. Mas o segundo já ficou tempo suficiente na minha cabeceira. Expliquei rapidamente pra Mai a estrutura do Cassandra, composto em quatro conferências: as primeiras duas sobre a recriação das histórias gregas propriamente ditas, a terceira um diário registrando como o livro foi escrito e a quarta conferência, uma crítica escrita em forma de carta para a amiga A., sobre as figuras de Cassandra a representação da mulher na literatura alemã clássica e na contemporaneidade. Absolutamente maravilhosa a estrutura do livro, nem preciso dizer da minha empolgação! Decidimos ler esta última parte, providenciarei cópias para vocês.

“tudo isso começou, inocentemente, com uma pergunta que eu mesma me fiz: quem foi Cassandra antes que alguém escrevesse sobre ela?”

Com relação a minha peça-de-teatro-em-gestação, essa provocação que nasceu de nossas trocas (título provisório: Medeia – o que aconteceu para que o Medo se tornasse nosso Rei), pensamos ainda que esta podia ser uma contribuição-meta-alvo-afetivo do grupo:

cada uma reescreve uma tragédia! na forma que desejar. óbvio.

Pensa com calma na proposta, Rô. Mas talvez dê samba. Daqueles bem mirabolantes sapucaiescos 😉

Depois a Mai leu trechos do Eros, Tecelão de Mitos, do Joaquim Brasil Fontes. Bem interessantes os trechos lidos sobre a figura de Safo e sua apropriação pelo Baudelaire. Não comento mais, mas a Mai pode preparar um post.

Ainda ouvimos um techo perturbador do O Inominável, do Beckett, outra contribuição da Mai. Linda a maneira pela qual ele, além de questionar o que é uma personagem, de onde sai sua voz, como se percebe, isso tudo, ainda nos coloca em dúvida. Existimos onde e quando?

Finalmente, um dos encaminhamentos discutidos seria realizar nosso encontro aberto, iniciando trabalhos assistindo a Medeia do Lars von Trier – cineasta que adoramos, vc sabe [ouça aqui uns cinco minutos de elogios ininterruptos ao cara e a sua relação com o feminino]. O que acha? É um filme curto e daria um debate interessante. Pensamos ainda em distribuir umas apostilas ao que comparecessem, com alguns textos legais que selecionamos. Ah, o coração didático…

Realmente, o pão fui eu quem fiz pensando em vocês. Bem mágico fazer pão. O Canek se comportou muito bem.

Nosso carinho,

Uma boa semana.

tragédia e lanchinhos artesanais

10 abr

se apenas esta voz pudesse parar, esta voz sem sentido que te previne de não ser nada, que simplesmente te previne de não ser nada e de não ter lugar beckett

ando viciada em beckett. nem queria falar a respeito disso, mas talvez seja bom deixá-lo aqui, quase uma charada: decifra-me ou te devoro.

mulheres nas tragédias. dramaturgos e cineastas geniais. planos para o grupo: o canek ficou quietinho, ouvindo tudo e dando carícias – às vezes – uns olhares derretidos | como quem entende que é difícil ser gente, e ainda mais ser mulher. você deve notar que estou te enrolando, e não disse nada sobre as nossas decisões criativas (guardo segredo? ou espero que a ana conte?). tenho meus motivos. por enquanto, só anoto que a rô, gripadinha, fez falta, e que a tarde foi deliciosa: cheia de assunto e futuros desenhados. em tempo: ana rüsche foi quem assou o pão e temperou. hum, poetas são poetas em tempo integral. te encontro depois. maiara.